quinta-feira, 13 de novembro de 2008

Edição_Manual2_07

Crisis: Um caso de definição de projeto



O jornalista Eduardo Galeano

No livro Guia para a Edição Jornalística, é citado o caso da revista Crisis, que circulou no Uruguai, na década de 70, durante o Regime Militar que assolava aquele país. O jornalista e escritor Eduardo Galeano (autor do livro As Veias Abertas da América Latina) descrevia a revista dessa forma:

- A cultura não terminava, para nós, na produção e consumo de livros, quadros, sinfonias, filmes e obras de teatro. Nem começava ali. Entendíamos por cultura a criação de qualquer encontro entre os homens e eram cultura, para nós, todos os símbolos da identidade e da memória coletivas (...) Por isso, Crisis publicava entre poemas, contos e desenhos, relatórios e reportagens sobre o ensino mentiroso da História nas escolas ou sobre os truques das grandes multinacionais que vendem automóveis e também ideologia. Por isso, a revista denunciava um sistema de valores (...) e o jogo sinistro da competição e do consumo que induz os homens a usarem-se entre si e a esmagarem-se uns aos outros.

Alguns exemplos dessa busca pela linguagem do povo estavam nos cantos indígenas, nas cartas de presos políticos, nos grafites dos muros, nas mensagens vindas dos internos em manicômios e até mesmo nos diálogos das crianças. Com essa personalidade, um veículo tem um jeito próprio de abordar as questões em que se detém, uma escolha de temas e enfim, a definição da forma que será vista pelo público leitor.

Edição_Manual2_06

Projeto Editorial

Lutar contra o tempo e contra as limitações de espaço condicionam parte substancial do planejamento de uma notícia. Apesar desses reveses, o veículo busca uma identidade, uma leitura própria do mundo e da vida que nos cerca, o que define os laços com o leitor. Alguns fatores são levados em consideração:

- Sumário do Produto = Formato, periodicidade, cobertura geográfica, distribuição ou circulação, etc.);

- Importância Estratégica = Pesquisas de mercado sobre índice de leitura/audiência;

- Público = Perfil (faixa etária, poder aquisitivo, gênero e grau de instrução) e instrumentos de medida (pesquisas com amostras por filtro de interesses)

- Armas contra a concorrência = Pontos Fortes e Pontos Fracos

- Orçamento = Mensal e Anual.

Em cada etapa de planejamento, o editor exerce o controle de qualidade, analisando a sua abordagem da realidade.

Edição_Manual2_05

A Divisão de Trabalhos

Reportagem, seja ela rotineira ou não, sempre deve ter um planejamento. No caso de situações-limite, podemos planejar conforme o quadro abaixo:





+ Repórteres x 1 Texto = Quando dois ou mais repórteres vão fazer uma matéria considerada trabalhosa para ser feita por um só profissional. Cada repórter responde por sua apuração e o editor geralmente amarra o texto final.

1 Repórter x + Textos = Quando um repórter dá conta de muitas pautas diferentes. É o que geralmente acontece no Jornalismo Diário. Pode ocorrer também de um repórter produzir uma reportagem especial e “simular” uma fragmentação de informações, em matérias principais, vinculadas e boxes.

1 Repórter x 1 Texto = A situação-limite se iguala ao resultado de que para vários repórteres terá um número idêntico de textos. È a situação tradicional de uma redação.

Edição_Manual2_04

A cobertura do Inesperado

Um acidente aéreo, a rebelião em uma penitenciária, a explosão de um prédio, um atentado, ou seja, fatos não-programáveis, imprevisíveis, coisa que nenhuma reunião de pauta seria capaz de prever. São fatos repentinos, mas que não justificam a falta de planejamento em uma cobertura. Jornalistas experientes até mesmo em cobertura de guerras mostram alguns cuidados que o profissional deve ter assim que explode um fato inesperado:

1. Resposta imediata - Partir para o local do fato assim que souber dele;
2. Agenda Interna – Contatos telefônicos dos setores da empresa jornalística
3. Caminho das Pedras – Saber a quem recorrer para fazer a cobertura, para obter dinheiro de emergência, passagens, transporte local, etc.
4. Disponibilidade de meios – Tanto de transporte como de comunicação
5. Agenda Externa – Contatos telefônicos de fontes (especialistas, instituições, autoridades do setor). Caso não seja da sua área habitual de cobertura, saber como localizar na redação tal agenda de números úteis.
6. Respaldo Operacional – Apoio interno para a cobertura: chefia para decisões de última hora, arquivo, links externos e plantonista para manter repórter de campo informado dos dados que chegam à Redação.
7. Remessa de material – Ter disponível motoqueiro, esquema de satélite ou de internet para o envio de imagens/textos à redação.

Justamente nas situações inesperadas que muitas vezes se revela a qualidade ética e técnica dos profissionais envolvidos na cobertura jornalística. A pressão para não perder algo se mistura ao desnorteamento natural diante de um episódio confuso, o que pode levar a coberturas trôpegas e insensíveis.

Edição_Manual2_03

A cobertura de Rotina

O planejamento de rotina é o de situações de agenda, como posse de governantes, estréia de peças teatrais ou mesmo repercussões econômicas de datas comemorativas, como Natal e Páscoa. Outra forma de planejamento de rotina é de situações inerentes às editorias: acompanhamento dos plenários das casas legislativas ou de treinos de futebol. Neste caso, também está a atuação das assessorias de imprensa, que conhecem a dinâmica jornalística, percebem o timing para uma informação influenciar uma cobertura e o conteúdo noticiado.

Quando se está fechando a edição do dia, o editor deve ter em mente algumas coisas: das notícias de hoje, quantas já sabia? Ele se preparou para elas, antes que a informação chegasse à concorrência? A equipe precisou “correr atrás do prejuízo?
Já na edição em preparação, o editor deve se perguntar: houve acesso ao material necessário para decidir sobre a edição? Quais objetivos tem a reportagem? Houve obstáculos? Eles poderiam ter sido evitados? Nossos valores estão sendo impostos ao leitor? Os recursos de edição estão no contexto da matéria? Qual a real importância do que está sendo privilegiado na edição?

Para as edições seguintes, as perguntas são: O que já existe de pauta para a amanhã ou depois? O que pode ser exigido da equipe? Um repórter pode dar conta da cobertura ou é necessário mais pessoas da equipe? Qual a infra-estrutura necessária?

Normalmente, o editor participa de duas reuniões diárias, sendo uma pela manhã com os pauteiros e a chefia de reportagem e as apostas do que pode render durante o dia. E a outra, no final da tarde, com o levantamento do material apurado, incluindo noticiário inesperado ocorrido ao longo do dia. Semanalmente, o editor também participa de uma reunião semanal, com as apostas e a agenda do que é previsível.

Edição_Manual2_02

Rotinas Produtivas

O que vai virar notícia, geralmente, é influenciado por três níveis de trabalho: o do jornalista, o da organização e o da comunidade profissional. Tudo isso, claro, seguindo valores subjetivos, como o caráter do jornalista, a produção empresarial e os valores que sustentam a categoria profissional. O jornalista precisa, ainda, lidar com dois fatores em seu trabalho: a milimetragem do espaço e o tempo (leia-se deadline).

O que vira notícia segue obrigatoriamente três critérios: a territorialidade geográfica (as regiões mais importantes do país e do mundo têm mais espaço do que comunidades periféricas); a especialização temática (divisão em editorias, uniformizando a vida social) e a especialização organizacional (sucursais, correspondentes, agências de notícias, que selecionam e determinam o que é notícia ou não, de acordo com os critérios anteriormente citados)
A questão do tempo é fator primordial, pois a partir do momento em que a edição da terça-feira está pronta, já se pensa na edição de quarta-feira. Isso leva ao planejamento de dois tipos de cobertura: as coberturas de rotina e as coberturas de fatos inesperados.

A necessidade de lutar contra o tempo levou as empresas jornalísticas a consolidar formas de controle sobre a imprevisibilidade dos acontecimentos numa nova tentativa de fixar aquilo que está em movimento contínuo. Isso se concretiza em uma série de procedimentos editoriais usados para o planejamento de coberturas.

Edição_Manual2_01



O Ônibus 174 e o Planejamento da Notícia

A história de Sandro do Nascimento, que agora chegou aos cinemas, foi marcada pela miséria e pela tragédia. Ainda pequeno, viu a mãe ser assassinada. Aos oito anos, escapou de morrer na Chacina da Candelária, em 1993. Em 2000, protagonizou um seqüestro ao ônibus 174 (hoje chamada de linha 158). Acuado pela polícia, sua saga foi transmitida para todo o País através da mídia. Resultado: acabaram mortos o próprio Sandro, além da arte-educadora cearense Geísa Firmo Gonçalves, grávida de dois meses.

Enquanto a TV não soube lidar com o improviso, os jornais acabaram por fazer uma cobertura completa. Inclusive com “furos” jornalísticos: a Folha de São Paulo (através de seu fotógrafo Luis Bittencourt) mostrou a foto de Sandro do Nascimento entrando vivo no camburão da PM (enquanto a versão oficial era a de que ele havia morrido em troca de tiros na saída do ônibus). Enquanto isso, O Globo teve como mérito o planejamento de cobertura, resultando na edição de 13 de junho de 2000:
Capa: a foto de Luís Bittencourt (a própria Folha colocou em páginas internas)























Concentração de Cobertura entre as páginas 15 e 20:
Página 15: Capa do assunto
Página 16: O ponto de vista dos 10 reféns durante o assalto
Página 17: O ponto de vista dos reféns antes do assalto + cronologia visual
Página 18: Os erros da polícia (um deles causando a morte de Geísa)
Página 19: Repercussão Oficial (autoridades e policiais)
Página 20: Repercussão Popular (o povo e a sociedade civil organizada)

Veja a ilustração da Primeira Página (destaque para as fotos de Sandro ainda vivo, entrando no camburão, e de Geísa, já morta)